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Quai d’Orsay
Por Celso Nogueira
Lançado nos anos 1970, foi uma das primeiras marcas cubanas dedicadas a um mercado específico, no caso, o francês. O nome se refere à famosa avenida à margem do Sena onde funciona a chancelaria e um museu famoso pelos quadros impressionistas e expressionistas. Quai d’Orsay tornou-se logo sinônimo de charutos leves e sofisticados.
O presidente Valéry Giscard d’Estaing pediu à SEITA, estatal do tabaco, que fizesse nos anos 1970 “um charuto de alto nível que representasse o refinamento francês com a mesma categoria que o foie gras, o champagne, os perfumes e a alta costura.”
Gilbert Belaubre, responsável pelo lançamento de produtos na SEITA (Societé Nationale d’Exploitation Industriel de Tabac et Allumettes), desenvolveu a marca em conjunto com a estatal cubana Cubatabaco. Na época, declarou: “Na impossibilidade de fazer um charuto francês de verdade, resolvemos apelar aos melhores do mundo, ou seja, os cubanos.” Belaubre criou o nome Quai d’Orsay pensando no endereço da SEITA, no ministério das relações exteriores e no museu, todos na mesma rua.
A nova marca foi oficialmente lançada no dia 8 de novembro de 1974 em cinquenta tabacarias francesas selecionadas. Em 1982 chegou a vender 300 mil unidades, número que posteriormente caiu a menos da metade. Com sua aquisição pela Altadis, a marca Quai d’Orsay está sendo renovada sem perder o charme que sempre a caracterizou. Os charutos continuam sendo feitos na fábrica de Romeo y Julieta, sob responsabilidade dos mestres Rodolfo Amaro e Arnaldo Ovalle.
Francis Mathieu, proprietário da tabacaria Boutique 22, na avenida Victor Hugo, em Paris, aprecia os charutos Quai d’Orsay desde 1982, e pode ser considerado um típico fumante francês, a julgar por suas palavras à revista Luxe:
“É um charuto muito agradável, com notas de especiarias e madeiras, sem os toques herbáceos dos Cuabas, que estão na moda.
O Quai d’Orsay Panetela é meu favorito há quinze anos, costumo fumar de manhã, depois do café, pois é bem fino. Trata-se de um formato muito difícil, e o abandonarei se os cubanos começarem a fabricá-lo de qualquer jeito. Além do mais, agrada às mulheres.”
Atualmente com três vitolas, o Quai d’Orsay apresenta características diferentes da maioria dos puros cubanos. As folhas de Vuelta Abajo (Pinar del Rio), usadas em sua fabricação, distinguem-se pelo sabor suave, quase adocicado, e força média. As capas estão entre o Claro e o Colorado Claro, pois os franceses preferem charutos de capa mais clara. Nos anos 1980 chegou a haver no mercado o Quai d’Orsay Corona Claro Claro, depois descontinuado.
A paixão dos franceses pelo tabaco ganhou fama mundial por causa dos cigarros Gauloises e Gitanes fumados pelos existencialistas em locais como Les Deux Maggots. Mas, já no início do século XIX, a escritora George Sand circulava por Paris sempre acompanhada por seu charuto cubano – chegava a fumar sete por dia, em geral vestida de homem. Por isso uma das maiores confrarias de charuteiras dos Estados Unidos chama-se George Sand Society, e fica em Santa Monica, na Califórnia.
Vitolas
Os Quai d’Orsay são considerados charutos de ótima construção e queima impecável. Segundo a página da Habanos SA, atualmente os Quai d’Orsay estão disponíveis em três formatos, e nota-se na presença de um panatela a predileção gaulesa por charutos mais finos:
Imperial - 7" x 47 (178 x 18.65 mm) - Julieta (churchill)
Corona Claro - 5 5/8" x 42 (142 x 16.67 mm) - Corona
Panetela - 7" x 33 (178 x 13.10 mm) - Ninfa (panatela)
Embora destinados ao mercado francês, é possível encontrar esses charutos em algumas lojas brasileiras. O churchill tem sido muito elogiado nas regiões que o comercializam. Eles são vendidos também no Oriente Médio, Caribe e África, principalmente nos países em que se fala o francês e onde os charutos com as características do Quai d’Orsay são apreciados. Gérard, da Gérard Père et Fils, de Geneva (o filho) destaca a mudança em alguns charutos cubanos, que hoje são mais leves, destinados a públicos jovens e específicos como o francês, ressaltando a qualidade imbatível do terroir:
“Graças ao sol, graças às condições climáticas e graças ao plano de trabalho agrícola que permite melhorar as terras; graças a um conjunto de condições geográficas; é uma questão de riqueza do solo, tem a ver com a natureza. Se você é apreciador do vinho, sabe que os vinhos duma região como Saint-Emilion não têm o mesmo gosto dos vinhos de Saint-Nectaire. O que quer dizer que, mesmo se se trata da mesma região geográfica, dum terreno para o outro, os vinhos são diferentes. O mesmo se passa com o próprio tabaco cubano, que varia em função da região. Portanto, como é que era possível que o tabaco que vem de outro país, mesmo que geograficamente próximo, não desse origem a produtos diferentes? Mas eu creio que isso é bom, porque permite hoje ao consumidor compreender que o charuto cubano estendeu ele próprio de uma maneira colossal os seus aromas iniciais. Recorde-se que nos anos 50, 60, os charutos tinham uma conotação, no plano do gosto, muito mais tipificada, muito mais "corsé", e hoje em dia nós conseguimos aromas que são muito mais suaves, muito mais ligeiros. Podemos sempre explicar as razões em função dum outro tipo de clientela mais jovem, por exemplo, o que é bom.”
Depoimentos
"Tive oportunidade de adquirir uma caixa do afamado charuto cubano Quai d’Orsay
na tabacaria Geroge V em Paris. Aliás , Tabacaria localizada não muito distante
da não menos famosa avenida d’Orsay que batizou este habano produzido para
o mercado francês.
Os coronas tem anilhas discretas e dão o tom do charuto.
Bem produzido, como todo habano, entretanto, bem mais suave que a maioria daqueles
produzidos na ilha. Na mesma linha, a capa clara aponta esta suavidade de sabor.
A queima, lenta e gradual, indica que é um verdadeiro cubano. Recomendo!"
(Marlus H. Arns de Oliveira – Curitiba)
"Passei a defender o Quai D’Orsay após adquirir uma caixa em uma viagem ao exterior.
É um daqueles charutos considerados raros no mercado brasileiro, talvez por ser diferente,
suave para os padrões cubanos, e muito equilibrado, uma das características principais dos
charutos da Ilha. O Quai D’Orsay merece a degustação calma e atenciosa,
seus sabores e notas são delicados, e remetem aos sabores, cheiros e formas da capital francesa.
Excepcional charuto."
(Aurélio Peluso - Curitiba)
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Celso Nogueira - tradutor, editor e redator
especializado em alimentos e bebidas, trabalha
com marketing de relacionamento em uma multinacional
e faz traduções literárias
e gastronômicas, além de realizar
palestras e conduzir degustações
sobre gastronomia, cachaça e charutos.
Foi um dos fundadores e atuou como diretor da
confraria Cigar Club.
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